Era uma vez um senhor que tinha um blog onde nunca mostrava a cara. Este senhor alegava possuir requintado gosto, vasta erudição e alargados horizontes. Escrevia sem erros ortográficos ou morfossintáticos, soprava umas baforadas de música clássica, dizia-se conhecedor de literatura e arte, no todo e na parte, e largava umas piadolas contra os políticos, os ignorantes, os proletários, os incultos, as mulheres e outros seres que, na sua pena virtuosa, careciam de correção e encaminhamento. Raposa velha da blogolândia, sabia também criar slogans como ninguém (que logo eram copiados pelas hordas de fãs, como o "Que vês da tua janela, fulano / sicrano?") e gerir a sua imagem como um profissional. Sendo um dos poucos bloggers do sexo masculino a conseguir escrever escorreitamente, ainda por cima sem ser de futebol, tinha um exército de aduladoras (ok, eram sempre as mesmas quatro ou cinco, mas adiante). Na esperança trémula de um dia conseguirem uma resposta do Grande Pipoco, estas senhoras sorviam-lhe os perdigotos com uma sede de groupies adolescentes, aceitando tudo e tudo aplaudindo, até um belíssimo texto misógino que as pôs um dia a esgadanhar-se:
Tiradas desta grandeza criaram um halo de brejeiro mistério em torno do dito senhor, atribuindo-lhe um estatuto de galã da blogosfera, um adónis sem rosto, exclusivamente verbal, obstinadamente eloquente, com um travo de maldade-na-cama e a sabedoria de quem-já-comeu-muitas-e-todas-deitou-fora. Até o Tio Dolce, admirador confesso dos filhos de Adão, nutria um secreto fraquinho por este sedutor experiente e arisco, ao passo que a Bichana imaginava em sonhos, alquebrada, o que seria o Pipoco nu. Muito bem. Até que um dia...
...Até que um dia o ídolo mostrou, literalmente, os pés de barro. Pés esses que surgiram ignominiosamente envoltos em meias com borbotos, sem elástico, com vincos esbranquiçados - e respetiva conotação olfativa - de algo que não vê máquina de lavar há uns tempos, dentro de uns sapatos de número demasiado baixo para prometer grandes dimensões de outros atributos físicos. E, nos chouriços cruzados, as perneiras de um fato às riscas.
Ora bem. O chamado "dark suit with white pinstripes" traz colada a si uma conotação desafortunadamente negativa. Trata-se do chamado Mafioso look ou gangster subtext. É claro que se for envergado por um banqueiro da City, alto, loiro e de olhos azuis, ou por um WASP de Wall Street, essa conotação esmorece. Num portuga, porém?... Baixo, moreno, de fémur curto e músculos engarrafados? Hmm, não. Aliás, apenas reforça o estereótipo:
[Muito obrigado à nossa leitora AJ, que nos forneceu este retrato do herói Pips.]
No entanto, talvez esta conotação acabe, afinal, por salvar o nosso imprudente Pipoco. Talvez o mulherio empreenda a reconstrução do mito a partir de um novo campo imagético: o do mafioso que é bom na cama. Com outros sapatos e as mesmas meias transpiradas, quem sabe, o nosso ídolo tombado talvez consiga reerguer-se da lama.
Moral da história:
Pode ter caído o Carmo e a Trindade. Podem as senhoras bloggers ter perdido, chorosas, o seu sex symbol. Pode a blogopátria ter extraviado o seu premiado BILF... Mas nem tudo está perdido. Desde que o Tio Salgado não mostre mais fotografias suas (algo que ele ensaiou atabalhoadamente, na ressaca desorientada do faux pas), desde que, dizíamos, volte a acalentar imaginários e nunca mais revele a realidade nua e crua da sua carcaça terrena, estamos todos bem. O Dolce volta às suas fantasias, a Bichana aos seus sonhos, e toda a blogosfera respirará de alívio.
Sempre vossos,
Dolce e Bichana















































